A criminalização da academia: a história de um “mestrado” com “licenciatura oculta”

  Em meados de 2019, ao Centro de Jornalismo Investigativo aportava uma denúncia sobre alegadas promiscuidades na academia moçambicana, Um

 

Em meados de 2019, ao Centro de Jornalismo Investigativo aportava uma denúncia sobre alegadas promiscuidades na academia moçambicana, Um docente com o grau de “mestrado”, servia nos como uma das amostra para investigarmos. Trata-se de Elidio Cuco, uma “figura pública” com aparições em debates televisivos e cuja licenciatura, condição sine quo non para obtenção do grau de “mestre”, o CJI, apesar de todas as tentativas legais de esclarecimento, foi envolto em nuvens cizentas que adensam o novelo com nuances de criminalização e banalização da academia.

Por CJI 

Exerce funções como docente universitário do Instituto Superior de Ciências e Tecnologias Alberto Chipande (ISCTAC) há sensivelmente cinco anos e acaba de obter o grau de MESTRADO naquela mesma instituição de ensino superior, mas não consta em nenhum lugar que tenha feito o grau de licenciatura.

Trata-se do famoso analista e comentador político Elídio Cuco, especialista em política internacional e interventivo em programas televisivos como “Observatório Internacional” e “Opinião Pública” da STV Notícias, “Tribuna do Cidadão” da TIM e “Visão Política” da TV Sucesso.

As suas qualificações académicas há muito que vem sendo questionadas nos corredores do ISCTAC por outros docentes e até mesmo por alunos daquela instituição, mas a sua estranha defesa e graduação com o nível de MESTRADO levou a que se procurassem as suas origens, até que algumas fontes qualificadas da Universidade Joaquim Chissano (UJC), antigo Instituto Superior de Relações Internacionais e Diplomacia (ISRI), confirmaram se tratar de um estudante daquela instituição, mas que nunca chegou a concluir o curso de licenciatura em Relações Internacionais e Diplomacia.

A 12 de Dezembro de 2019 CJI contactou o visado que em mensagem de texto disse-nos, confirmando ser ele o “Elidio Benjamim Cuco ano 2010”.

Numa consulta a uma base de dados considerada infalível no departamento de graduações do UJC/ex-ISRI, uma fonte anónima ligada àquela instituição confirmou que Elídio Cuco nunca defendeu a sua tese de licenciatura, pelo que nunca terminou o curso. “Eu trabalhei com o Cuco em 2013 e lembro-me da dificuldade dele em escrever o trabalho. Agora entrei nos registos de defesas de tese de 2016 até hoje. Neste período, não tem nenhum registo com o nome de Elídio Cuco”, disse uma fonte na UJC/ex-ISRI.

Um docente da UJC/ex-ISRI também confirmou o facto, tendo dito que o estudante em causa sempre teve dificuldades de escrever a sua monografia. O mesmo docente não admira o facto de Elídio Cuco ser docente do ISCTAC sem que tenha feito a licenciatura, dado que este caso, segundo ele, “é uma gota no oceano”.

“O próprio ISCTAC é uma gota no oceano diante da desonestidade académica que inunda o mercado do ensino superior”, destacou a fonte.

Elídio Cuco faz parte de um grupo de 41 estudantes do ISCTAC que foram graduados com o nível de MESTRADO numa cerimónia realizada nos finais do ano passado. Na mesma cerimónia de graduação, dirigida pelo vice-reitor daquela instituição de ensino superior Júlio Taimira, foram graduados 641 estudantes, dos quais 600 são licenciados. “Parte significativa das teses dos graduados com o nível de licenciatura foram corrigidas por este docente, apesar de nunca ter conseguido terminar a sua própria tese no ISRI por forma a obter o grau de licenciatura”, disseram as nossas fontes.

Da nova lei do ensino superior

De acordo com a nova Lei de Ensino Superior, os docentes do nível de licenciatura devem ter no mínimo o nível de mestrado. Para preencher esse requisito, o ISCTAC viu-se na obrigação de submeter os seus docentes aos cursos de mestrado de forma compulsiva, o que terá aberto espaço para arbitrariedades, o que não é incomum num mercado onde povoam os abusos.

Interpelado telefonicamente pela nossa equipa de investigação, Elídio Cuco disse que fez a sua licenciatura no Instituto Superior de Relações Internacionais (ISRI) em 2015, tendo nos aconselhado a ir àquela instituição buscar tais informações caso haja alguma dúvida.

O estranho silêncio da UJC e do ISCTAC

Com efeito, o Centro de Jornalismo Investigativo (CJI) abordou a Universidade Joaquim Chissano (UJC), antigo Instituto Superior de Relações Internacionais e Diplomacia (ISRI). Numa carta datada de 17 de Janeiro do presente ano, perguntámos a esta instituição quando Elídio Cuco terá feito a sua licenciatura. Esta instituição nunca se dignou a responder, violando gravemente os pressupostos da Lei do Direito à Informação, que fixa em 21 dias o prazo de resposta a um pedido de informação.

Por seu turno, o vice-reitor do ISCTAC, Júlio Taimira, disse que se tratava de uma situação anormal, pelo que não seria possível um indivíduo obter o grau de mestrado sem nunca ter feito a licenciatura. Ele prometeu averiguar o caso, que iria retornar. Desde Janeiro a esta parte, nem água vem nem água vai. Não atende as chamadas, nem sequer responde mensagens.

Face ao silêncio das duas instituições, que se recusam a responder ao nosso questionamento, prevalece a dúvida: como Elídio Cuco obteve o grau de MESTRADO no ISCTAC sem nunca ter concluído a LICENCIATURA no ISRI? Das duas, uma: ou o silêncio das duas instituições de ensino superior revela a falta de interesse que as mesmas têm sobre um indivíduo que terá formado dezenas de licenciados sem nunca ter sido licenciado durante cinco anos e obtido o grau de mestrado sem nunca feito a licenciatura ou então esconde um perigoso sistema de burlas, falsificação de documentos, falsidade ideológica, corrupção, clientelismo, nepotismo e abuso de poder para a obtenção de títulos académicos no nosso sistema de ensino superior. Da nossa parte, continuaremos à espera das respostas oficiais da UJC/ex-ISRI e do ISCTAC ao nosso pedido de informação com vista ao esclarecimento da verdade.

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