Cabo Delgado 2017-2022: Um Quinquénio de Terror

Cabo Delgado 2017-2022: Um Quinquénio de Terror

  Por Repórteres CJI  A história contemporânea regista as datas e os eventos para melhor compreensão dos fenómenos, actores e suas motivaçõ

 

Por Repórteres CJI 

A história contemporânea regista as datas e os eventos para melhor compreensão dos fenómenos, actores e suas motivações naquilo que o poeta moçambicano, Heliodoro Baptista escreveu: “Saberás que para haver história/os homens mataram e morreram/ morreram e mataram’.

O dia 05 de Outubro é definitivamente uma dessas datas de que muito poucos querem guardar memórias. 

Em 2017, num dia como hoje, “um grupo de miúdos” da Mocímboa da Praia e arredores, supostamente sob comando de Bonomado Machude Omar, ex-fuzileiro naval moçambicano, começou a senda do terror na Mocímboa da Praia, Cabo Delgado, seu berço natal.

As marcas mais violentas dessa estranha e injusta guerra dilaceram com impacto os distritos de Mocímboa da Praia, Palma, Quissanga, Macomia e Muidumbe, cinco dos dezassete distritos de Cabo Delgado, e estatisticamente, doze distritos já foram tingidos com o selo da barbárie. Em termos matemáticos mais de sessenta por cento da província. 

O combate ao extremismo violento que aterroriza Cabo Delgado a um quinquénio, levou, em finais de Junho passado, ao assalto `a Base Kathupa em acção conjunta do exército governamental, SAMIM e tropas do Rwanda. Oficialmente, a base era o até então o último bastião dos jihadistas locais (também chamados insurgentes ou localmente de ma’Shababos). 

Siri 1 e Siri 2 foram outras das principais bases destruídas e ocupadas pela coligação militar que combate os terroristas em finais do ano passado.

O Centro de Jornalismo Investigativo (CJI) apurou que foi para Base Khatupa, no distrito de Chiúre, sul da província, que Bonomado Machude Omar se abalou acompanhado dos seus homens depois da contra-ofensiva governamental que culminou com a recuperação de Mocímboa da Praia (que esteve 11 meses sob controlo terrorista), a tomada das bases Siri 1 e Siri 2 a sul de Mocímboa. 

A tomada da Base Kathupa foi anunciada pelo Presidente da Republica e Comandante em Chefe das Forcas de Defesa e Segurança (FDS) a 14 de Junho disse: “A base fica naquela zona de mata densa, e grande e os insurgentes tinham la a base central e sub-bases, e na base central e la onde estava o comandante deles o Bonomado Omar e Marina”. A declaração do Presidente Nyusi pode se ouvir

Bonomado no Quivu? 

O CJI já descreveu o perfil deste jovem natural de Mocímboa da Praia a quem as autoridades moçambicanas querem “vivo ou morto” depois de identificado como líder máximo dos terroristas que provocam o terror em Cabo Delgado desde 5 de Outubro de 2015.

O arrojado ataque `a Vila de Palma, poucos quilómetros do coração da gigantesca operação de exploração de gás na Península de Afungi, levou a multinacional francesa Total Energies a suspender as suas operações evocando “force majeure”. O Departamento de Estado norte-americano através dos seus serviços de inteligência, identificaram Bonomado como a figura que comandou o ataque e o colocou na sua lista de “terroristas globais”.

Fontes do CJI em Nairobi, acreditam que entre finais de Junho e inícios de Julho, Bonomado tenha participado num importante encontro do ISCAP no Kivu Norte, região da República Democrática do Congo sob domínio de grupos terroristas como a ADF.

No alegado evento, a fonte devidamente identificada pelo CJI, disse que “terão chovido duras críticas ao modus operandi do braço do ISCAP em Moçambique pela carnificina que já deveria ter cessado. A instrução e de que nas zonas sobre sua influencia parem de matar civis e passem a cobrar taxas a quem queira viver nessas áreas”. 

Há semanas as autoridades encetaram buscas no populoso bairro de Paquitiquete a procura do rastro de Bonomado após informações que indicavam que duas das suas quatro esposas estariam alojadas algures nos arredores de Pemba. O CJI sabe também que a Procuradoria Provincial de Cabo Delgado esteve em alerta total após ter informações de que cerca de 50 Jihadistas estariam na cidade de Pemba. 

 

Abdala Likonga

Fontes do CJI garantem que Abdala Likonga um dos líderes dos terroristas que actuam em Cabo Delgado desde o primeiro ataque, tem sido visto com alguma frequência entre os distritos de Macomia, Mocímboa da Praia e Mueda. 

Alegadamente, segundo as nossas fontes, Abdala tem estado nos seus estabelecimentos comerciais a fazer normalmente seus negócios e ainda a recrutar jovens para o terrorismo. Pese embora, as notícias dêem conta de uma ligeira calmia nos ataques, os terroristas estão a atacar de forma inteligente e silenciosa e a recrutar mais jovens principalmente do sexo feminino, e a treinar mais terroristas dentro e fora de Moçambique.

As fontes afirmam ainda, que Likonga tem feito publicações de fotos recentes nas redes sociais, na sua conta de Facebook. Entretanto, Abdala Likonga e descrito como quem deu o “primeiro tiro” no dia 5 de Outubro de 2017, e é responsável pelo recrutamento de vários jovens envolvidos no terrorismo incluindo Dardai Djongo e Ibn Omar.

Os Espiões de Ibn Omar

Noutros desenvolvimentos as fontes revelam ainda, que Bonomar Machude Omar ou seja Ibn Omar, tem espiões infiltrados no seio da comunidade de deslocados e em todos os Centros de Acolhimento aos deslocados em Cabo Delgado, Niassa e Nampula. O medo nos deslocados, faz com que estes prefiram conviver com estes espiões do que perder a sua vida conforme as ameaças feitas nesse sentido.

Uma história narrada por um sobrevivente aos ataques no Niassa no mês de Fevereiro: “eles têm pessoas do seu grupo nos deslocados. Têm pessoas nas aldeias que os informam tudo o que se passa nas aldeias. Um dia um jovem terrorista, mascarado disse a nós, ou se juntam a nossa causa ou morrem nas nossas mãos. Cerca de 50 pessoas do sexo masculino foram levadas. Fomos ameaçados para não denunciar”. O medo da morte cala estas pessoas que sofrem todos dias em Cabo Delgado, Niassa e agora em Nampula.

“Estamos calados por causa do medo e não temos confiança da nossa tropa. Estes bandidos têm infiltrados nas FDS, não temos como provar isso, porque são coisas que apenas vivemos e sentimos, coisas que temos visto quando estamos a correr e a chorar. Se pudéssemos sair deste país, sairíamos, deixaríamos o governo e os terroristas a se matarem. Porque nós aqui no Niassa por exemplo, não sabemos as causas desta guerra. Mas o governo sabe. Por isso omite muitas coisas. Está luta não é do povo. Nos simplesmente estamos a morrer. Somos mortos sem termos feito nada”. Disse a fonte.

Frente do Niassa

Entretanto, fontes anónimas da cidade de Lichinga afirmam ainda que, há circulação de terroristas estrangeiros disfarçados de comerciantes. Como é o caso da zona do Mercado Central. “Existem várias pessoas da Somália, Nigéria, Uganda, Congo, Tanzânia, Quénia, etc., disfarçados de comerciantes que favorecem os terroristas. Eles têm bombas de combustível, mercearias, e lojas. Tudo em benefício ao terrorismo.”

Eles circulam dentro e fora do país. Nós conhecemos e não podemos indicar por conta do medo. Eles traficam marfim, dentes de leão e outras riquezas que a província do Niassa dispõe” disse a fonte em tom de desabafo.

“A fonte, acrescentou ainda que “os Somalis de que me refiro têm algumas bombas de combustíveis que eles acabam de comprar aqui em Niassa e sustentam a guerra em Cabo Delgado. Aqui em Niassa é uma das bases logísticas dos Al Shabaab. Veja essas bombas de gasolina: Global Petróleo, Sky Petróleo, e Mera. Onde uma esta em Cuamba e as outras 5 na cidade de Lichinga, a ultima bomba deles compraram de Sul-africanos apouco tempo, estão localizadas no bairro Sanjala, e neste momento em construção.”

O que diz o governo provincial?

De acordo com algumas fontes, o governo local sempre foi notificado pelas populações da existência de grupos de jovens estranhos no Niassa. A informação foi desleixada pelas autoridades porque nada foi feito apesar das denúncias. Mesmo após os ataques em Cabo Delgado, a população sempre esteve atenta e denunciou os jovens estranhos e sem sucesso. “ Nós sempre denunciamos estes jovens, porque desconfiamos desde 2004 a existência de pessoas estranhas, mesquitas estranhas, enfim. Estamos assim agora” rematou.

“Não é que o governo não tenha conhecimento desde o início. A nossa província ficou cheia de pessoas estranhas, principalmente estrangeiros desde o ano 2007. É sabido que a partir de Balama, Cabo Delgado, chega-se a Niassa. Isto sempre foi corredor dos terroristas por conta disto. Niassa é uma província grande com poucos distritos. As nossas matas são vastas” acrescentou.

Na época que o terrorismo começou em Cabo Delgado, tivemos alguns casos semelhantes aos ataques aqui. Não se levou em consideração, não se investigou se os terroristas é quem protagonizavam alguns ataques por desconhecidos aqui na província ou não, simplesmente limitaram-se a dizer que “são desconhecidos”. Não houve preparo e nem reforço por parte da segurança e proteção da população. Consequências são as que actualmente estamos a vivenciar” disse a fonte.

Ainda a Incógnita

Entretanto, desde o quinto dia do mês de Outubro do ano de 2017, a província de Cabo Delgado, distrito de Mocímboa da Praia, vem vivenciando ataques terroristas. Este grupo já teve vários nomes atribuídos, uma vez que a sua identidade real sempre foi um mistério. Já foram chamados de marginais, jovens revoltados desempregados e esfomeados, bandidos armados, insurgentes até então que ficou claro que trata-se de um grupo extremista cujos objectivos ainda são desconhecido. Estes são os ma’Shababos ou apenas terroristas. Ainda não há certeza de que lado estes favorecem. No início, não matavam a população apenas policias, militares e funcionários do Estado e destruíam infraestruturas publicas. Mais tarde grupo passou a matar tudo e todos e a destruir tudo quanto vêm `a sua frente.

O CJI percorreu toda estrada número e obteve alguns dados a analisar. A nossa equipa de reportagem dirigiu-se à província do Niassa onde apurou de fontes seguras, que no mercado Central de Lichinga, Niassa, um dos meios de angariação de fundos para os terroristas são alegados comerciantes terroristas, por exemplo, eles têm lojas próximo ao Hotel Singela, nesse lado existe um armazém-ferragem cujo proprietário é parte do grupo terrorista. Tentamos sem sucesso contactar o acusado.

De seguida a fonte afirmou ainda que no distrito de Mandimba também existem também apoiantes, conforme relatos. “Olha, são muitos membros do Al Shabaab, estão la em Chókwe, Caia, mandaram fazer take way até no rio Save. E eles fazem da seguinte forma, são rotativos, trabalham 2 anos saem e vêem outros. Para onde vão os outros? Será que regressam as suas terras de origem? Estão lá desde a época em que o país se mostrou com indícios de terrorismo, entre 2000 a 2002. Isto não é coisa de hoje. Veja bem as transportadoras. Tudo para sustentar a guerra” disse a fonte. Para nossa confirmação 

Uma fonte, nativa de Caia, disse ao CJI ser importante averiguar os take way existentes naquela região. Caia é uma vila bem colocada no centro de Moçambique nas margens do Zambeze próximo da ponte que liga o Norte e o Centro do pais. 

A fonte, acrescentou ainda que “os Somalis de que me refiro têm algumas bombas de combustíveis que eles acabam de comprar aqui em Niassa e sustentam a guerra em Cabo Delgado. Aqui em Niassa é uma das bases logísticas dos Al Shabaab. Veja essas bombas de gasolina: Global Petróleo, Sky Petróleo, e Mera. Onde uma esta em Cuamba e as outras 5 na cidade de Lichinga, a ultima bomba deles compraram de Sul-africanos apouco tempo, estão localizadas no bairro Sanjala, e neste momento em construção.”

A fonte acrescentou existirem vários membros do Al Shabaab na província do Niassa em particular na cidade de Lichinga. O repórter do CJI pode visitar alguns destes lugares mas não logrou sucesso em entrevistar algumas destas pessoas acusadas de participar no terrorismo.

Quo Vadis?

Apesar do triunfalismo oficial é facto que a guerra do terror ainda faz vitimas e afecta mais regiões na zona Norte do pais. Desde 7 de Setembro que a província de Nampula e mais um dos palcos desta guerra. 

Milhares de mortos, quase um milhão de deslocados, projecto económico de gás praticamente suspenso, e a insegurança a espalhar-se pelo país.

Entre trapalhices discursivas e exibicionismos gratuitos que denotam uma gritante falta de estratégia, este é o rescaldo, por alto, de  quinquénio de terror de um grupo de miúdos de Mocímboa da Praia apesar da musculatura verbal de pessoas do Estado autorizadas a falar acerca de um conflito que não se admite uma guerra mas que mata-se e também se morre.

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