Manifestação de charme com uma vacina que deve ser testada

Manifestação de charme com uma vacina que deve ser testada

Com 200 mil doses duma vacina, cuja eficácia contra a variante sul-africana da Covid-19 ainda não foi testada, o Governo de Moçambique reivindica

Com 200 mil doses duma vacina, cuja eficácia contra a variante sul-africana da Covid-19 ainda não foi testada, o Governo de Moçambique reivindica ganhos na luta contra o coronavírus. A investigação do Centro de Jornalismo Investigativo apurou que o país, para além da benesse chinesa, só poderá beneficiar de mais vacinas em finais de 2021. Entretanto, um outro lobby, que o CJI começou a seguir o rasto, pretende introduzir, no país, até finais de Junho, a vacina de Oxford/AstraZeneca, que se manifestou ineficaz contra a variante 501Y.V2. O CJI sabe que essa é a variante que maioritariamente circula em Moçambique.

 

Texto: CJI

 

Enquanto se imuniza o pessoal de saúde, Moçambique tem de pensar na imunização de mais 2.691.119 de cidadãos maiores de 50 anos, que representam 76% das mortes por coronavírus no país. Carlos Agostinho de Rosário, primeiro ministro, é optimista em relação ao êxito na imunização do pessoal da saúde, mas adverte que “a vacina tem de ser vista como uma medida complementar na prevenção à Covid-19”. Moçambique conta com uma experiência sólida para suportar este processo, não somente pela capacidade de aplicar vacinas, mas também pela sua larga experiência no que diz respeito à imunização de outras doenças ao longo do país.

O CJI ouviu vários profissionais de saúde e muitos estão apreensivos quanto à eficácia da vacina. Pelo menos quatro, em cada 10, refere que se estivesse nas suas mãos não se vacinaria. O medo, na sua maioria, resulta do facto de, no seu entender, não estar garantida a ausência de efeitos secundários. Ademais, a convicção no sector da saúde, é que seria bem mais eficaz usar a vacina testada na África do Sul, por razões muito naturais.

O CJI sabe que, primeiro, sob ponto de vista epidemiológico, o país precisa de testar a vacina antes. É prematuro avançar para uma campanha de vacinação sem grandes certezas de eficácia. Contudo, o executivo na sua acção cosmética de força apresenta algo que não se sabe se vai dar certo como uma grande solução para os profissionais de saúde e o país.

O Governo é incapaz de assumir os custos para que as vacinas sejam adquiridas e cheguem a todas regiões do país, tal como acontece com as campanhas de vacinação onde existe sempre um doador. De facto, o Programa Alargado de Vacinação (PAV) conta com um sistema tecnológico avançado de controlo e distribuição de vacinas, mas em pequena escala. Contudo, os grandes desafios começam com a disponibilidade da vacina, mas também pela existência real de bases de dados que permitam agendar adequadamente de forma transparente as fases de vacinação. Deste modo há dúvidas legítimas em vários actores. O jornalista Armando Nenane, referiu na sua página de Facebook que o “plano de vacinação estava a ser divulgado através de meios não oficiais e com recurso a porta-vozes não autorizados que costumam a poluir a opinião pública”.

Um médico especialista em saúde pública chama atenção sobre o número de vacinas que, no seu entender, “é curto para as necessidades dos principais centros urbanos”. “Não obstante o processo ter de ir ao compasso das necessidades e recursos disponíveis e tendo em conta a infraestrutura física correspondente, será necessário um esforço imenso para cumprir a meta de vacinar 20% da população, tendo como premissa a protecção e o respeito pelas necessidades do sector da saúde”, apontou. Por seu turno, outros médicos apontam como desafios evitar a politização da vacina, ampliar a capacidade instalada, actualizar bases de dados e não descuidar outros planos de vacinação e nem a prestação de serviços de saúde, assim como vigiar a possível emergência de cartéis de venda de vacinas.

 

Logística

 

Em matéria logística, um investigador do CISM da Manhiça, também vê muitos desafios e refere que o principal neste campo é operar debaixo da escassez e da incerteza. “Hoje nenhum país em vias de desenvolvimento sabe quando, nem quantos doses chegarão claramente e a demanda supera várias vezes a oferta. Essa condição requer uma planificação distinta que contempla diferentes cenários para avaliar qual é a melhor opção em meio a condições geográficas tão assoladas por calamidades naturais como as nossas. Não é o mesmo vacinar em Maputo, por exemplo, do que Niassa, onde Maputo e Matola reúnem uma boa percentagem da população.

Outro ponto chave que expõe é minimizar o desperdício. “Uma vacinação convencional funciona com uma lógica onde a perdida de doses, não sendo desejada, prioriza a saúde do indivíduo. Essa lógica é adequada em contexto de abundância. Numa situação de pandemia com doses insuficientes deve primar a saúde colectiva sobre a individual e isso muda o esforço a realizar, tanto na perspectiva macro como na micro”, assegura.

Nesse sentido, sugere que o processo de vacinação seja “produtivo, veloz, eficiente e preciso”. “Não podemos mover-nos a um ritmo de 40 vacinados por dia, isso não é adequado para uma situação de emergência, devemos desenhar processos para que cada centro aplique milhares de doses por dia. Devemos ter poucos centros de vacinação, mas localizados de forma a evitar o desperdício das doses e garantir uma maior controle e coordenação entre oferta e demanda. Só que temos de ter vacinas, com 200 mi doses ainda estamos a brincar”, disse.

“Neste passo não creio que o Governo cumprirá a meta de imunizar 3.000.000 de moçambicanos”. sentencia. No entanto, Moçambique candidatou-se ao acesso à vacina da Covid-19, através de um esquema de distribuição global coliderado pela Organização Mundial de Saúde, dando-lhe a opção de comprar doses para, pelo menos, 20% da sua população, disse o presidente Filipe Nyusi. O problema, para os especialistas ouvidos não reside na disponibilidade, mas na distribuição e o momento.

COMMENTS

WORDPRESS: 0
en_USEnglish
pt_PTPortuguese en_USEnglish