O homem mais procurado de Moçambique

O homem mais procurado de Moçambique

Um jovem futebolista do remoto distrito de Palma encontra-se hoje na lista dos Estados Unidos dos terroristas globais – e o ministro de defesa de

Um jovem futebolista do remoto distrito de Palma encontra-se hoje na lista dos Estados Unidos dos terroristas globais – e o ministro de defesa de Moçambique promoteu capturá-lo vivo ou morto. Conheçam Bonomado Machudo Omar, o ardiloso líder da insurgência em Cabo Delgado.

 

Nota do editor: Num relatório publicado esta semana, a International Crisis Group descreveu a insurgência islamita no norte de Moçambique, já no seu quinto ano, como “uma das mais graves ameaças à paz e segurança em África”. Mas a origem desta ameaça, e a identidade dos insurgentes, têm estado envoltos num mistério. Nesta edição, o The Continent traça o perfil da figura mais pública da insurgência – e a chave para a compreensão das suas tácticas e motivações.

 Por Luis Nhachote e Milda Quaria

O seu nome é Bonomado Machudo Omar, nascido no distrito de Palma, na província nortenha de Cabo Delgado. Tem estado envolvido na insurgência em Cabo Delgado desde o seu começo em 2017, e é agora – de acordo com o Departamento de Estado dos EUA – a face mais proeminente de uma insurgência que paralisou a região.

Em Abril de 2021, o Major General do exército moçambicano, Cristâovão Chume, prometeu que Bonomado “será capturado vivo ou morto”. Chume foi recentemente nomeado ministro da defesa. No dia 6 de Agosto de 2021, o Secretário de Estado dos EUA, Anthony Blinken, designou Omar um membro do Estado Islâmico e um “terrorista global”, num comunicado público.

Descrito como calmo e brutal, Omar serviu como fuzikeiro na marinha das forças de defesa de 2003 à 2005. Porém, agora quer derrubar o próprio estado a quem serviu, e substituí-lo por um califado.

 

Quem é Bonomado Machude Omar? 

Num artigo publicado em Setembro de 2020, o Centro moçambicano de Jornalimso Investigativo (CJI) identificou Bonomado Machudo Omar, também conhecido por Omar Saide ou Sheikh Omar, como o orador num video que viralizou nas redes sociais em Março de 2020. O orador no video alega ser o líder supremo da insurgência, que nessa altura já tinha três anos. No ano seguinte, o centro de pesquisa moçambicano, OMR (Observatório do Meio Rural), publicou um novo perfil do homem – explicando que nasceu em Pemba, na aldeia de Ncumbi, e deslocou-se à Moçímboa da Praia com cinco anos após a morte do seu pai. A sua mãe voltou a casar e o padrasto de Bonomado introduziu-lhe ao Islão, que ele estudou e teve domínio. Bonomado concluíu a 10ª classe na Escola Secundária Januário Pedro, em Moçimboa da Praia, e segundo os seus antigos professores, era um jovem calmo, um bom aluno, e um bom jogador de futebol.

Após sair da escola, ele serviu na marinha em Pemba, e subsequentemente foi para o internato da escola da Africa Muslim para concluir a 12ª classe. Ele era popular entre os seus pares, conhecido pelo seu sentido de justiça e protecção dos mais novos. Um dos seus “hobbies” era jogar futebol. Devido à sua altura, entre 1m80 e 1m90, e o facto de que jogou no meio campo fê-lo adquirir a alcunha de Patrick Vieira, o futebolista francês que se notabilizou no Arsenal de Londres.

Bonomado sobreviveu vendendo vegetais e roupa islâmica num mercado em Pemba, para um comerciante estrangeiro, que se pensa ser tanzaniano ou somaliano. Ele viajou para Tanzania e África do Sul. Depois regressou à Moçimboa da Praia onde construíu uma mesquita, bem como uma banca para a venda de quinquilharia adquiridas nos mercados tanzanianos ou na cidade de Pemba,

Em seguida, participou nos primeiros ataques sobre Moçimboa da Praia, em Outubro de 2017, e refugiou-se nas matas. Ainda não está claro quando ficou radizalizado, ou o que lhe levou à violência.

Por causa das suas habilidades militares e capacidade de se camuflar, adquiriu localmente a alcunha de “Rei da Floresta”. O OMR diz que Bonomado é actualmente o líder dos insurgentes em Moçambique – algo confirmado em 2021 pelo comunicado dos Departamento do Estado dos EUA, que lhe descreve como sendo “o facilitador chefe e canal de comunicação para o grupo”.

Promessa para o povo

Bonomade liderou os ataques da insurgência sobre Palma, em Março de 2021, e sobe Moçímboa da Praia no ano anterior. As duas cidades já foram recapturaram pelo exército moçambicano com a ajuda das Forças Ruandesas de Defesa; Moçambique não conseguiu segurá-las ou retomá-las sozinha.

Foi depois da queda de Moçímboa da Praia em 2020 que Bonomade fez o seu famoso discurso, gravado numa cámera de celular e distribuido pelo mundo. O discurso dá um sentido das suas motivações.

 

Falando em pé em frente da esquadra policial da cidade – um símbolo potente do poder do estado que caíra nas mãos dos jihadistas -, Bonomade disse à população local que não matariam ninguém ou robariam do povo, apesar de enfrentar oposição da mesma. “Sabemos que a vossa vontade é que desaparecéssemos,” diz à multidão. “Mas Deus abençoou-nos e ganhamos mais força”.

“Viemos antes, voltamos, esta é a segunda vez, estamos a dar-vos mais uma chance: não vamos vos ninguém, não vamos destruir nada que pertença ao povo, tudo que estragarmos será do governo,” disse.

“Ocupamos (a vila) para mostrar que o governo do dia é injusto. Ele humilha o pobre e dá vantagem aos chefes. São os da classe baixa que são detidos, portanto, isso não é justiça”, continuou.

Bonomade disse ao grupo que estava a trabalhar para estabelecer um governo islâmico – e enfatizou que “somos filhos daqui, e esses rostos não são novos. Existem muitos de nós nas matas.”

Apesar das suas nobres palavras, os insurgentes foram implicados em vários massacres brutais de populações civis – à semelhança das forças de segurança contra as quais lutam. E Bonomade, segundo uma fonte com conhecimento íntimo das operações do grupo, desempenha um papel de comando nas operações militares.

Os insurgents estão divididos em mais ou menos 30 pequenos grupos, cada um com a sua própria especialização, tal como fabricar bombas, abrir túneis, e colecta de informação, e os líderes de cada grupo reportam à Bonamade.

O grupo financia as suas actividades através do contrabando de minérios e tráfico de droga, e alegadamente isso também passa por ele, a fonte disse.

Devido à natureza secreta do grupo insurgente, não se conseguiu falar com Bonomade.

Um novo Dhlakama?

Desde aquele dia em Moçímboa da Praia em 2020 – e a queda de Palma em Março de 2021 – o governo moçambicano, com ajuda, em particular, das tropas ruandesas, voltou a estar no volante. As cidades foram retomadas, e pensa-se que Bonomade desloca-se de base à base à medida que as tropas moçambicanas, ruandesas e a missão da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral) desmantelam as bases que encontram no seu caminho.

Mas a atração de Bonomade e os seus homens junto dos desfavorecidos de Cabo Delgado permanece um perigo, adverte o pesquisador moçambicano, João Feijó, o autor do relatório do OMR sobre Bonomade e outros líderes insurgentes. “Vários testemunhos descrevem-no como alguém sinsitro e brutal, mas também com um sentido de justiça,” Feijó disse ao The Continent, numa entrevista na semana passada.

“Existem vários factores que produzem este tipo de líderes: radicalização através de estudos em madrassas, revolta contra experiências concretas de pobreza e marginalização e mesmo oportunismo, que se aproveita do desespero das comunidades”, disse Feijó.

“Estabeleço um paralelo com Afonso Dhlakama,” continuou Feijó, referindo-se ao falecido líder do movimento de resistência moçambicana e mais tarde partido de oposição, Renamo. “Ele foi o protagonista da guerra civil que dilacerou o país, mas ele atraía multidões e foi muito popular.”

O sucesso de tais populistas ressalta a necessidade de qualquer solução para o conflicto incluir inclusão social, e satisfazer as necessidades básicas das comunidades.

“Não estou contra as soluções de defesa e segurança, mas esta abordagem deve ser acompanhada pela criação de empregos para jovens, a provisão de serviços sociais básicos, respeito pelos direitos humanos e incentivos para a participação democrática das comunidades na vida política e económica do país,” disse Feijó.

Artigo publicado originalmente no The Continent with Mail&Guardian

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