Os Gladiadores da reserva do Niassa

Os Gladiadores da reserva do Niassa

São cerca de vinte horas e trinta minutos na sede do Distrito de Mecula. Estamos a 5 de Agosto de 2020. De repente irrompem vozes em grito de socorro,

São cerca de vinte horas e trinta minutos na sede do Distrito de Mecula. Estamos a 5 de Agosto de 2020. De repente irrompem vozes em grito de socorro, ouvem-se batuques, eco de balas disparadas para o ar, algo que a dado momento me fez pensar estarmos perante mais uma tentativa de ataque dos alegados “Al-shabab” depois de terem sido rechaçados aquando da sua tentativa de entrada no princípio deste ano. Estava completamente enganado, tratava-se de algo mais complicado que já dura faz tempo. Era a população local, fiscais que munidos de latas, armas que afugentavam os paquidermes, búfalos. Estácio Valoi do Centro de Jornalismo Investigativo esteve lá e conta o que reviu.

Faz poucos anos que na Reserva Nacional do Niassa uma média de cinco elefantes eram abatidos por dia. Como resultado, a população de elefantes em Niassa reduziu drasticamente de 20.374 para menos de 13.000 entre 2009 e 2013. A matança pelo marfim por sindicatos organizados estava sendo realizada numa escala “industrializada” – entre 1.500 e 1.800 elefantes estão sendo caçados por ano, principalmente no norte de Moçambique, envolvendo tanzanianos, somalianos e chineses com conivência de líderes da nomenklatura politica moçambicana.

Segundo Baldeu Chande, a Reserva Nacional do Niassa começa a ganhar forma dos anos 2000 a 2006, e desenhou-se a estratégia com o propósito de dar um significado ecológico assim como na contribuição para o desenvolvimento socioeconómico das comunidades, não dando maior prioridade ao desenvolvimento ambiental em detrimento daquilo que é o desenvolvimento humano, equilibrando as duas coisas.

Aumentou o número de elefantes, mas em contra partida o conflito homem animal agudizou-se, as comunidades locais estão saturadas e medidas urgentes são precisas para a protecção das pessoas, facto que caso medidas concretas não sejam tomadas o cenário poderá ser catastrófico, “um conflito eminente”. Esta informação é corroborada pelo administrador da Reserva Especial do Niassa, Baldeu Chande, segundo o qual “é necessário trazer as medidas para proteger as comunidades”.

Neste contexto espera-se que a vedação, uma separação de espaço perante uma coabitação quase que impossível. O maior apelo da comunidade está na mensagem “É instalação de uma vedação”.

Zero Elefante abatido

Segundo José Filmão Sitoe, chefe da fiscalização, os últimos 23 elefantes abatidos em resultado da caça furtiva foi registado em 2018, tendo-se durante os últimos 19 meses registado “zero elefantes” abatidos. Este resultado deve-se ao aumento do efectivo-criação, de uma força conjunta composta por fiscais ajuramentados da própria Reserva, fiscais das coutadas, agentes UIR, Polícia e a comunidade, assim como a transformação dos games hunters para coutadas de conservação e não caça, como antes acontecia.

Também no tempo chuvoso, a Reserva tem um helicóptero à disposição para facilitar o processo. Segundo Sitoe, os caçadores sabem como os fiscais se locomovem e que até desafiam os fiscais. “Podem vir caçar à frente do seu posto que sabe que você não vai atravessar, de helicóptero é fácil, é multidisciplinar.” E, os cinco Elefantes mortos no ano passado foram devido a doença, outros feridos por outros animais. Enfatizou Sitoe”

Mas este resultado teve como base segundo diz Sitoe, os chefes dos fiscais. Limpar a zona de concentração do maior número de furtivos ao longo do Rio Lugenda e outras áreas pelo meio, os vários desafios do fiscal no seu dia-a-dia, de tristeza, de choro. Neste trabalho complexo e duro, muito mal compreendido, há derramamento de sangue, há mortes, violência por acção dos caçadores furtivos que vêm armados até aos dentes e também vítimas dos animais bravios”.

Fiscais ainda com problemas salariais

Segundo Baldeu, umas das questões que mais afecta o fiscal é o salario e as negociações entre a Reserva Especial do Niassa e a Biofund, que está em curso de forma a limar esta questão, “estamos a negociar com a Biofund um pacote de financiamento, apoios que se fazem através da Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC).

Apesar das infra-estruturas vistas dentro da Reserva, financiadas pela WCS – USAID, UNDP e outras como o governo Japonês e a reserva que ainda consegue providenciar “a ração, comprar os fardamentos e também comprar combustíveis com aqui dois grandes financiadores WCS e a USAID” a questão do salario é um dos grandes problemas. É o salário que nós pagamos ao fiscal, pagos através das receitas que nós fazemos aqui”.

Assistência às comunidades 

Segundo Samuel Bilere, Veterinário da Reserva Especial do Niassa, que para além do seu trabalho principal faz assistência às comunidades no âmbito veterinário assim como a mitigação do conflito que está mais focalizado para o elefante e o búfalo que representam o maior problema, pois as pessoas têm tanto medo do Elefante como do Búfalo.”

Neste problema do conflito homem animal segundo Bilere, toda a assistência necessária em casos de ferimento ou morte pelos animais, a reserva da assistência às comunidades a nível local até ao hospital provincial em Lichinga. “A gente tem dado assistência na hora, desde o ferimento até à morte. Disponibilizamos carros para levar a pessoa ao hospital local ou para o provincial de Lichinga, e no caso de óbitos nós fazemos procedimentos do caso até ao fim, não deixamos a família desamparada e fazemos perceber às pessoas que a culpa não é da reserva, pois o que estamos a tentar desenhar é que haja uma coexistência entre as comunidades e os animais”.

Erguer uma vedação elétrica convencional num raio de 110 a 135 quilómetros que vai separar a comunidade da parte da reserva é o mais preocupante, mas que atrasou devido ao COVID-19 e o consultor e a empresa acabaram atrasando o procedimento, mas o material todo já foi pago e só falta montar-se a vedação, enfatizou Bilere.

Mas a Neima ainda engessada, de muletas desde o mês de Maio, mal consegue caminhar sem meios financeiros para a sua alimentação, outras necessidades assim como para deslocar-se à Capital do Niassa, Lichinga para observação médica, no dia 31 de Agosto, sem meios, sem carro. Para levar a criança e o seu Pai de volta a Lichinga não foi ter com o médico para o respetivo controlo.

Vedação e mais vedação

A questão da vedação, segundo o Delegado Distrital para os deficientes militares, Jeremias Martinho  Angale, a construção da vedação vai demorando, o que deixa os membros da comunidade preocupados, passam-se meses e o ano está a terminar, não temos informação clara. Dizem que o dinheiro para a construção já entrou no Banco de Moçambique e que vão entregar à ANC, depois à Reserva. Mas mesmo perguntando ao governo local, este não diz nada, nós aqui estamos a viver em dois governos – um governo do povo que é administrador do distrito fala a sua coisa, um governo da reserva fala a sua coisa, e aqui sem justiça de informação é o povo e a própria comunidade”.

Quanto aos 20% de benefício económico prometido às comunidades locais, capacitação de pessoal e reabilitação de áreas de conservação por meio da construção e manutenção de infra-estruturas de gestão e reintrodução de espécies emblemáticas para atracção turística e recuperação de ecossistemas, segundo os guardas, “nada foi pago ”.

Mas nem tudo é um mar de rosas, continua a do Leão e outras espécies

“É difícil dizer se é alto ou não, porque são animais que normalmente os seus troféus não são muito duradouros, mas são poucos e também têm aquilo que eu costumo chamar a ciência africana de medicina que acaba recorrendo a esses produtos, acaba dissimulando e por ai não temos esse indicador de medição, e em Moçambique temos um regulamento, não há outro país, os animais que nós estamos a abater são animais de facto que não têm um grande impacto na dinâmica da população dessa espécie, e é por isso que foi reconhecida pelos cientistas. De facto os Estados Unidos recebem os nossos troféus, diz Chande.

Facto este reconfirmado por alguns fiscais, a caça do Leão ainda está em investigação porque é uma caça furtiva biológica, com recurso ao uso de produtos químicos, por isso é difícil descobrir, está muito complicado e é preciso a gente continuar a investigar.

Armadilhas prontas

Segundo Sitoe foram quase 500 armadilhas encontradas só no primeiro semestre deste ano na caça a animais de pequeno porte e está subindo um bocado. No mês de Agosto tivémos mais cerca de 400 armadilhas, e quanto à madeira, em Janeiro tivemos que capturar umas 556 tábuas e mais algumas mas não como antes, enfatizou Sitoe.

Casos em tribunal e detidos

Em tribunal segundo a RNN, foram 12 casos julgados, onde três destes, 4 pessoas foram condenadas a 12 anos de prisão e outra delas a dois anos, convertidos em trabalho social, algo que não alegrou a reserva. Não concordámos. Tivemos que recorrer porque o Juiz entendeu que podia amnistiar no âmbito da COVID-19, mas também há limite de penas, classificação não sei se foi falha ou o quê, eles beneficiaram daquela amnistia, e isso foi no Niassa Tribunal Provincial.

Segundo fontes, a única caça furtiva deu-se fora da RNN no antigo Majune Safari, ao longo do rio Misenge onde Jemusse Daniel de nacionalidade tanzaniana foi capturado com um AK-47 com munições.

“Nenhum fiscal assistiu ao seu julgamento e não cumpriu a pena, pós-se em fuga, até agora continuamos à procura desse indivíduo. Recuperámos armas que foram usadas na caça furtiva dentro da Reserva nos anos de 2016 e 2017. Essas armas foram apreendidas em Majune no posto administrativo de Maqueia e a outra na sede do distrito de Marupá. Também mais três armas automáticas AK-47 e semiautomáticas usadas na caça furtiva no Majune Safari, Liwire, Kambako. Na altura em 2015 durante um patrulhamento os furtivos foram perseguidos de helicóptero, esconderam-se em Mauá, onde continuaram com a furtividade juntando-se com alguns furtivos da Província de Cabo Delgado.

 

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